sexta-feira, 24 de maio de 2013

O sal da língua


Escuta, escuta: tenho ainda              
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Este mês podes ver...


Duas irmãs, Ana e Maria Bolena, são manipuladas pelos seus ambiciosos pai e tio para reforçar o poder e
status da família, através da conquista dos favores do Rei de Inglaterra. Inicialmente, Maria ganha os favores do Rei Henrique e torna-se sua amante, dando-lhe dois filhos ilegítimos. Mas Ana, esperta, intriguista e destemida, consegue afastar tanto a sua irmã como a mulher do Rei, a Rainha Catarina de Aragão, na sua incessante perseguição ao Rei. Embora os sentimentos de Maria por Henrique sejam genuínos, a sua irmã Ana tem os olhos postos no grande prémio – ela não descansará até ser Rainha de Inglaterra. Enquanto as irmãs Bolena lutam pelo amor do Rei - uma levada pela ambição, outra pela afeição genuína – a Inglaterra divide-se. Apesar das dramáticas consequências, as irmãs acabam por descobrir força e lealdade uma na outra e, para sempre, permanecem ligadas por um laço de sangue.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

AS ASAS SÃO PARA VOAR


Naquele dia, o Jorge esperava-me com um conto na ponta da língua.
Quando se tornou maior de idade, o pai disse-lhe:
— Meu filho: nem todos nascemos com asas. Embora seja verdade que não tens obrigação de voar, creio que seria uma pena limitares-te a caminhar, tendo as asas que o bom Deus te concedeu.
— Mas eu não sei voar — respondeu o filho.
— É verdade… — disse o pai. E, caminhando, levou-o até à beira de um precipício.
— Vês, filho? Este é o vazio. Quando quiseres voar, vens até aqui, apanhas ar, saltas para o abismo e, abrindo as asas, voarás.
O filho hesitou.
— E se cair?
— Se caíres, não morrerás. Ficarás apenas com algumas nódoas negras, que te tornarão mais forte para a tentativa seguinte — replicou o pai.
O filho voltou para a aldeia, para junto dos seus amigos e companheiros, com os quais caminhara toda a sua vida. Os de vistas mais estreitas, disseram:
— Estás louco? Para quê? O teu pai enlouqueceu… Para que é que precisas de voar? Deixa-te de disparates! Quem é que precisa de voar?
Os melhores amigos aconselharam:
— E se for verdade? Não será perigoso? Porque não começas aos pouquinhos? Experimenta atirar-te do alto de uma escadaria ou da copa de uma árvore. Mas… do cimo de um precipício?
O jovem escutou o conselho dos seus amigos queridos. Subiu à copa de uma árvore e, enchendo-se de coragem, saltou. Abriu as asas, adejou-as em pleno ar, com todas as suas forças, mas infelizmente despenhou-se.
Com um grande galo na testa, cruzou-se com o seu pai.
— Mentiste-me! Não consigo voar. Experimentei e olha para o galo com que fiquei! Não sou como tu. As minhas asas só servem para decoração.
— Meu filho — disse o pai —, para voar é preciso criar espaço livre para que as asas se possam abrir. É como atirar-se de para-quedas: precisas de uma certa altura antes de saltar.
«Para voar, é preciso começar por correr riscos.» Se não quiseres, será porventura melhor resignares-te e continuares a caminhar para sempre.

Jorge Bucay
Deixa-me que te conte
Cascais, Ed. Pergaminho, 2004

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Este mês podes ler...


O tema central do livro, embora delicado, é extremamente actual: uma rapariga de 15 anos que se envolve com um homem de 29 anos. A protagonista feminina, Dulce, é uma "Lolita" do século XXI: rapariga adolescente, antes uma criança gordinha, que se reinventa fisicamente mas que altera também o seu interior para se adaptar às pessoas com as quais se cruza. Emocionalmente uma criança, mas com corpo de mulher, utiliza o poder que a sociedade lhe dá para seduzir um homem adulto sem pensar nas consequências. O protagonista masculino, Eddie, não é exactamente o «Lobo Mau», mas veste muito a pele de cordeiro: mais velho, mais experiente, é nitidamente um efebófilo. Sente o medo de ser apanhado em falta e a ilegalidade da situação, mas está viciado na excitação, no perigo e na adoração dela.

Um romance de superior qualidade literária sobre um tema candente, que encara os problemas de frente ao mesmo tempo que foge aos estereótipos.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Conheces o autor do mês...


Ana Saldanha nasceu no Porto em 1959, onde se licenciou em Línguas e Literaturas Modernas (variante de Estudos Portugueses e Ingleses) em 1981.
Em 1992 fez o Mestrado em Literatura Inglesa em Birmingham e em 1999 doutorou-se na Universidade de Glasgow com uma tese sobre Rudyard Kipling e a sua obra infantil.
Ensinou Inglês a portugueses do Porto e Português a ingleses de Birmingham e Glasgow.
Ganhou o Prémio Literário Cidade de Almada com o seu romance Círculo Imperfeito e tem-se também dedicado à tradução.
Mas é sobretudo conhecida como uma das melhores escritoras portuguesas para jovens.
Com efeito,  Ana Saldanha é uma das escritoras mais queridas das novas gerações. Nos seus textos, a autora demonstra uma especial habilidade em dar voz aos interesses, ideais e valores dos seus leitores que rapidamente se identificam com as personagens e os universos ficcionais por ela recriados.
Detentora de uma linguagem ágil e de um estilo fluente, a autora recria com particular visualismo e significado afectivo as vivências e o mundo anterior de adolescentes e jovens, estimulando a reflexão e possibilitando o diálogo. Um humor subtil percorre muitas das suas obras que revisitam a tradição e a enriquecem com novos e estimulantes contributos.
Ana Saldanha tem recebido muitos prémios pela qualidade e interesse da temática da sua obra.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Este mês sugerimos ouvir...


Os Blind Zero nasceram em 1994. O seu primeiro EP Recognize (1995) esgotou em apenas nove dias e tornou-se uma peça de colecção. O álbum Trigger (1995), primeiro trabalho de originais, produzido por Ronnie S. Champagne, um produtor de Los Angeles que havia trabalhado com bandas como Jane´s Addiction, Alice in Chains, Remy Zero e Deconstruction. O disco teve o condão de agitar o panorama musical português de uma forma que poucos poderiam prever: foi dos primeiros discos de Rock de uma banda portuguesa a atingir o galardão de disco de ouro. O ano de 1996 revelaria uns novos Blind Zero: Flexogravity (EP), um disco com muito de experimental e de fusão, partilhado com a banda de Hip-Hop Mind da Gap; Rock, Hip-Hop, Industrial, Trip-Hop, Cabaret. Esta junção, surpreendente e inovadora para muitos, foi reconhecida como o EP do ano.
Era altura para um formato mais acústico. Transradio, um dos primeiros Enhanced CD (CD Extra) europeus, traz-nos o lado mais introspectivo dos Blind Zero, conjuntamente com muito material interactivo. Gravado ao vivo na Antena 3, transporta-nos para o lado de dentro das canções, mutuando-as de encontro à sensibilidade de quem as criou e recriou. Meses mais tarde, foram convidados para participarem no SCYPE ("Song Contest for Youth Programs in Europe"), festival que reúne bandas de todo o continente europeu. Gravando propositadamente um novo original (My House), ganharam o concurso.
Dois anos após a edição do seu primeiro álbum, os Blind Zero começam as sessões que resultariam em Redcoast (1997). Redcoast é mais do que Rock; é uma mistura de ambientes, sons e emoções. Este novo disco foi produzido por Michael Vail Blum (produtor norte americano que já havia deixado a sua marca em bandas e artistas como os Suicidal Tendencies, Madonna, Roxy Music, 3T, Tura Satana, Goo Goo Dolls, Jewel). "Redcoast" foi masterizado nos estúdios da Sony Music/New York por Mark Wilder, recentemente galardoado com um Grammy Award.
Em 2002, gravam uma versão de um dos mais emblemáticos temas de David Bowie, Heroes, para o disco "Mundial 2002".
Os Blind Zero escolheram o mês de Janeiro de 2003 para o início das sessões de gravação do seu novo disco de originais. A Way to Bleed your Lover, com produção de Mário Barreiros (Clã, Ornatos Violeta, Pedro Abrunhosa, entre outros), marca a entrada de um novo elemento para a banda, Miguel Ferreira. Com participações de Jorge Palma e Dana Colley (Twinmen/ex-Morphine), este disco é o reflexo de um novo momento. Um novo imaginário, atitude e um enorme passo em frente na direcção do que de mais profundo se pode resgatar da melhor tradição de escrita de canções. Simultaneamente, um outro mapa sonoro, que substitui a aridez do anterior registo por ambientes mais planantes e trilhos sonoros mais densos e complexos, onde as emoções e as personagens estão, mais do que nunca, no limite, no reflexo da pele, entre o negro e as estrelas.
Em Maio, os Blind Zero são convidados pela MTV para realizar, em Milão, um “MTV Live”. A transmissão deste concerto teve honras de abertura no lançamento da MTV Portugal. Depois de muitos concertos em grandes espaços (onde se destaca o memorável concerto do Festival Sudoeste, com a presença em palco de Jorge Palma), os Blind Zero encetam a Tour de Force, uma Tour em pequenos espaços pelas dezoito capitais de distrito do País, reinventando todo um circuito que se encontrava aparentemente adormecido. Tocando olhos nos olhos, em concertos íntimos e absolutamente únicos.
Em 2004, os Blind Zero comemoraram os seus 10 anos de percurso, celebrando o acontecimento no Porto, no mês de Março, com um “Concerto especial 10 anos”, onde para além de uma envolvência única e de diversos convidados especiais, puderam ser ouvidos temas nunca ou raramente tocados pela Banda, num espectáculo irrepetível.
Em 2010 lançam o Luna Park que representa o segundo fôlego dos Blind Zero que não nos param de surpreender neste últimos anos com uma arquitetura rock FM, que apresenta algumas analogias com as músicas da década de 80 do século passado.
Fonte: Wikipédia