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segunda-feira, 12 de maio de 2014

Do hotel para um campo de refugiados: a nova vida de um sabonete


— Já lavaste as mãos?

— Lavaste as mãos antes de começar a comer?
— Lavaste as mãos quando vieste da escola?
— E não te esqueças de usar o sabonete!
Quantas vezes não ouvimos as nossas mães repetirem estas frases vezes sem conta?
Chegámos até a odiar o sabonete, que nos atrasava para o lanche, com aquele bolo de que tanto gostávamos, ou nos fazia perder tempo quando, ansiosos, só queríamos pegar no pão e começar a ler o livro que tínhamos trazido da biblioteca ou que um colega nos emprestara. Ou que nos picava nos olhos quando a mãe, zangada por não lavarmos a cara, no-la segurava com firmeza e, com gestos decididos, nos esfregava a cara, as orelhas, e o pescoço com o sabonete e a toalha molhada.
Mais tarde, era o cheiro do sabonete que nos fazia lembrar os ralhos da mãe, o lanche engolido à pressa nas tardes solarengas para não interromper demasiado tempo do jogo de futebol com os amigos. Para não falar no cheiro da mãe, da avó, da tia que nos visitava sempre pela Páscoa. E o cheiro a lavado, depois do banho? E quem não se lembra dos que eram guardados nas gavetas e que perfumavam os lençóis e a roupa interior?
O sabonete, odiado e amado, entrou de tal forma no nosso quotidiano que passou a banal, e do qual quase nem nos apercebemos. O ato de lavar as mãos está automatizado: abrir a torneira, molhar o sabonete, esfregar, secar. Já nem sabemos porque lavamos as mãos.
Mas… será assim em todo o mundo? Infelizmente, não é. Nos países menos desenvolvidos, o sabonete é um bem de luxo e o ato de lavar as mãos, que pode salvar tantas vidas, principalmente de crianças, não está ao alcance de todos.
♣♣♣♣
O ato de lavar as mãos, que até teve direito a dia mundial, 15 de Outubro, pode salvar a vida de milhares de crianças e adultos. Em países menos desenvolvidos de África, Ásia e América Latina, onde nem toda a gente tem acesso a sabão, a taxa de mortalidade por diarreia, febre tifóide, cólera, infeções respiratórias é elevadíssima. Em situações de catástrofes naturais ou em campos de refugiados, onde as condições de higiene são deficientes, as condições para a propagação de vírus aumenta perigosamente. Inacreditavelmente, a lavagem das mãos antes da preparação e ingestão de alimentos, após o uso dos sanitários, e, muito importante, durante o parto, reduz significativamente a taxa de mortalidade e a propagação dos vírus.
♣♣♣♣
Que o diga Derreck Kayongo, que, pela janela do jipe, vai olhando a paisagem do Quénia que desliza à sua volta. Nascido no Uganda e com uma infância agitada, é com emoção que acompanha pessoalmente a entrega de uma carga peculiar. O seu e os jipes que o seguem estão carregados com cinco mil barras de sabonete que irão ser entregues em diversos orfanatos e organizações não-governamentais que trabalham com refugiados. Sabonete que provavelmente vai salvar da morte centenas de pessoas.
Derreck mal pode esperar pela primeira paragem. A cabeça começa a encher-se de recordações da infância e os olhos de lágrimas. Uma vida e uma infância estável no Uganda abruptamente interrompida pela tomada de poder do ditador Idi Amim e o começo da guerra com a Tanzânia, que obrigou a família a refugiar-se no Quénia durante alguns anos. Primeiro a mãe e as irmãs e, cerca de um ano mais tarde, o resto da família abandona a casa e o país. Foi o início de uma vida difícil. Um novo país, novos costumes, uma nova língua. Derreck, que até ali só conhecia as preocupações típicas de uma criança saudável, deparou-se repentinamente com uma realidade assustadora: a de milhares de pessoas que não têm nada, desde casa, comida, sabão para tomar banho. A sua família era mais uma das centenas de refugiados.
Nestas circunstâncias, as condições de higiene têm um papel fundamental. Dadas as condições de vida, a má nutrição e a falta de higiene, as epidemias e as doenças propagam-se facilmente e a morte é inevitável. Conscientes disso, cada sabonete recebido pela família era religiosamente guardado após ser utilizado.
Derreck não esquece a tristeza que sentiu quando soube que o seu amigo Balondemu tinha morrido. Na sua cabeça ressoam as lágrimas silenciosas das mães que viam os filhos morrer de cólera ou febre tifóide. A mãe dele obrigava os filhos a lavar as mãos com frequência, mas nem todas as pessoas podiam fazê-lo e nem todas sabiam que aquele gesto podia salvá-las. Aluno aplicado, teve a sorte de ter acesso à escolaridade. Quando terminou a universidade no Quénia partiu para os Estados Unidos da América, onde a primeira noite contribuiu decididamente para fortalecer a sua vontade de ajudar a lutar contra a pobreza.
No quarto do hotel deparou com três sabonetes: um para a cara, outro para as mãos, e um último para o corpo. Perplexo, Derreck desembrulhou o primeiro e cheirou-o. Resolveu guardar os outros na bagagem. No dia seguinte, ao voltar ao quarto, encontrou mais três sabonetes, que rapidamente se juntaram aos que estavam na mala. E assim sucessivamente. Ao fim de alguns dias, com a consciência pesada, desceu à receção.
— Venho devolver os sabonetes. Lamento, mas não tenho dinheiro para os pagar.
— Não se preocupe — tranquilizou-o o rececionista. — Todos os hóspedes têm direito a três sabonetes por dia. E podem levá-los para casa. Aliás, é o que muitos fazem.
Derreck não podia crer no que estava a ouvir.
— E… o que fazem aos que sobram? — perguntou atónito.
— Por razões de higiene vão para o lixo.
Ficou perplexo. Como era possível deitar fora uma preciosidade daquelas?
De volta ao quarto, pegou num pequeno sabonete e ficou a pensar nas duas realidades tão distintas que acabava de confrontar: no Uganda, onde havia um sabonete por casa, e que era usado por todos, até pelas visitas. Isso, quando havia possibilidades financeiras para o comprar. Num país onde os salários são tão baixos, o preço do sabonete era elevado e, comprá-lo, um luxo, que podia muito bem ser adiado. E ali estava ele num país onde havia mais do que um sabonete por pessoa, até para as diferentes partes do corpo, que ia para o lixo no dia seguinte. Os números começaram a galopar na sua cabeça. Quantos sabonetes eram desperdiçados ao fim do dia? Só naquele hotel? E em todos os hotéis dos EUA… da Europa… do mundo?
Lembrou-se de todas as crianças que conheceu enquanto viveu no Quénia e de muitas outras que viviam nas mesmas condições e cujas vidas podiam ser salvas se tivessem um sabonete na mão. Aquele resto de sabonete. De repente, uma cadeia de palavras apareceu-lhe em mente: Hotel-sabonete-higiene-refugiados. Telefonou ao pai para lhe contar o que acabara de acontecer. E foi com a ajuda deste que começou o seu projeto Global Soap Project, iniciado anos mais tarde, em 2009, e que o levava agora naquela viagem de regresso ao Quénia.
A ideia de Derreck fora reutilizar os restos de sabonetes que só são usado uma vez, e simplesmente derretê-los, esterilizá-los, convertê-los numa nova barra e fazê-los chegar às populações necessitadas – sem custos para estas.
Começou por apresentar a sua ideia aos hotéis, o que levou meses. Foram raras as recusas. Usando os conhecimentos do pai, que trabalhou numa fábrica de sabão no Uganda, começou por fazer este trabalho na cave da sua casa, em Atlanta. Comprou uma pequena máquina de fazer sabão, e com a ajuda da família, depois de separados por proveniência, os sabonetes eram lavados para retirar as impurezas, derretidos e transformados em novas barras.
Pouco a pouco, o projeto foi crescendo e ganhando dimensão. A cave tornou-se demasiado pequena para tanto trabalho. E o número de doadores e de voluntários foi também aumentando.
Derreck consegue fazer chegar os seus sabonetes onde eles são precisos, contactando diretamente as instituições no terreno; da Ásia à América Latina, passando por África, já distribuiu mais de cem mil sabonetes em mais de dez países. Quando saiu o primeiro carregamento para o Quénia, Derreck fez questão de acompanhá-lo pessoalmente. Quer ser ele a entregar os sabonetes às crianças que vivem como ele viveu.
♣♣♣♣
— Derreck, estamos quase a chegar.
O motorista arranca-o das suas recordações.
— Preparado?
Derreck há muito que sonha com este momento mas nunca conseguiu preparar-se realmente. A emoção de voltar àquele país que o acolheu durante a guerra, de ver as crianças sorridentes que os esperam e de saber que vão beneficiar com aquela carga, fez com que chorasse o caminho todo.
E ali estava ele, a distribuir sabonetes; a distribuir vida e esperança àquelas crianças que agradecem com um sorriso radiante, assim que desenterram o nariz da barra branca de sabonete que lhes foi depositada nas mãos. Depois pedem-lhe que lhes conte a história dos sabonetes. Já a contou milhares de vezes mas nunca se cansa. Ele, que foi uma daquelas crianças, teve uma ideia e concretizou-a. Graças ao seu passado, que não quis esquecer, e à sua determinação.

Por vezes, são as coisas mais simples, aquelas a que raramente damos valor, que podem fazer a diferença. Como no caso de um banal sabonete usado que ia para o lixo.
I. Birnbaum

A partir de: http://www.globalsoap.org

sexta-feira, 14 de março de 2014

Não há estranhos para mim


Há muito, muito tempo, quando eu era criança, o meu avô levou-me a visitar o seu pomar.
― É o último bocadinho de terra que possuo, desde que vim viver para a cidade ― disse-me, enquanto cumprimentava toda a gente.
― Avô, como fazes para conhecer tanta gente? ― perguntei-lhe, enquanto corria para o acompanhar.
Ele parou para esperar por mim.
― Não os conheço pelo nome, conheço-os pelo coração. Sabes, querida, não há estranhos para mim.
― Porquê? ― perguntei, dando-lhe a mão.
Sorriu alegremente e respondeu:
― Porque eu e o meu coração somos livres.
Depois de caminharmos um pouco, disse:
— Sabias que, nos tempos tristes da escravatura, eu costumava andar com sementes de macieira no bolso, e acreditava que, quando fosse livre, haveria de as plantar no meu próprio pedacinho de terra?
― Não, não sabia.
― Um dia, dei-me conta de que isso só aconteceria quando nós mesmos lutássemos pela liberdade. Então, uma noite, fugimos.
― Quem é “nós”?
― Eu, a tua avó Polly e a tua mãe, que era bebé na altura ― respondeu, acariciando os meus caracóis. ― Tínhamos medo, claro, mas fomos cuidadosos.
Parou de falar, enquanto relembrava aqueles tempos…
― Quando chegámos ao Norte, já tínhamos passado por muitos estranhos e por muitos perigos. Estávamos junto ao rio Ohio e éramos quase livres, quando nos demos conta de que a fome e o cansaço eram demasiado grandes para continuarmos a andar. Então, escondemo-nos num celeiro ali perto. Dormimos toda a noite, como há muito não fazíamos. De madrugada, um homem veio mungir as vacas e a nossa bebé chorou. Ficámos petrificados. O nosso desespero era tanto que nos sentíamos capazes de atravessar o rio a nado, só para sermos livres! Nunca mais voltaríamos para trás!
Passados todos estes anos, o meu avô ainda tremia só de pensar naqueles tempos. Peguei-lhe na mão com força.
― O homem percebeu que não estava sozinho. Mas não olhou para a nossa cor; olhou para a nossa aflição. Era branco, mas ajudou-nos. Nunca me perguntou o nome, embora me dissesse o dele. Chamava-se James Stanton e era membro do Caminho-de-Ferro Clandestino.
― Oh! ― exclamei. ― Aquelas pessoas que ajudavam os escravos a viajar para o Norte?
― Aqueles que nos ajudaram quando mais precisávamos. James e a mulher, Sarah, não viram na tua mãe uma menina negra, apenas um bebé com fome. Deram-nos de comer e ajudaram-nos a atravessar o rio na noite seguinte.
― Isso é que foi sorte, avô! ― alegrei-me, agarrando-lhe a mão com força.
― Não sei se foi sorte, querida. Tínhamos de confiar em Deus. Tínhamos tomado a resolução correcta e nunca nos faltou a ajuda. E conseguimos. Sei o que é precisar de ajuda e recebê-la. Por mim, nenhum estranho ficará caído no chão sem que eu lhe estenda a mão.
Caminhámos em silêncio e o ar primaveril trazia até nós o cheiro fresco e doce das macieiras em flor.
― Quando chegámos ao Norte, a tua avó e eu trabalhámos arduamente para quem nos quisesse contratar. Arámos terra, apanhámos fruta, mungimos vacas, cosemos pão e ferrámos cavalos até termos dinheiro suficiente para comprarmos um pedaço de terra. Este!
E mostrou-me um belo pomar, cheio de macieiras em flor.
― Lembras-te das sementes com que eu andava sempre no bolso? Peguei nelas e plantei-as no nosso pedacinho de terra. De cada vez que plantava uma, lembrava-me de uma pessoa que me tinha ajudado. Olha para todas estas flores!
O meu avô tirou uma maçã de cada bolso.
― Essas vieram da tua cave, avô?
― Vieram. Guardei-as para as comermos juntos.
Sentámo-nos a comer.
― Avô, será que um dia poderei plantar uma semente de memória aqui?
O meu avô sorriu, comovido:
― Podes fazê-lo agora mesmo.
Plantei as sementes da maçã que comera. Enquanto isso, o meu avô observava os meus gestos, relembrando, sem dúvida, o que fizera muito anos atrás.
― Não me esquecerei do que fizeste hoje ― disse o meu avô, levando a mão ao peito.
― E eu não esquecerei o que me contaste, avô.
E nunca esqueci.
― Então agora percebes por que razão não há estranhos para mim ― disse o avô, com uma alegria imensa estampada no rosto, enquanto acenava para o céu.

Ann Grifalconi; Jerry Pinkney
Ain’t nobody a stranger to me
New York, Hyperion Books for Children, 2007

(Tradução e adaptação)



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A Senhora dos livros

A minha família e eu vivemos num sítio pertinho do céu. A nossa casa fica situada num local tão alto que quase nunca vemos ninguém, a não ser falcões a planar e animais a esconder-se por entre as árvores.
Chamo-me Cal e não sou nem o mais velho nem o mais novo dos irmãos. Mas, como sou o rapaz mais velho, ajudo o meu pai a lavrar e a ir buscar as ovelhas quando, às vezes, elas se escapam. Também me acontece trazer a vaca para casa ao pôr-do-sol, e ainda bem que o faço. É que a minha irmã Lark passa o dia todo a ler.
O meu pai diz sempre que nunca se viu uma rapariga tão superleitora... Cá comigo não é assim. Não nasci para ficar sentado e quieto a olhar para quatro garatujas. E não acho graça nenhuma a que a Lark se arme em professora, porque a única escola que existe fica a quilómetros daqui, e ela dificilmente lá irá chegar. Por isso é que ela quer ensinar-nos. Só que, a mim, a escola não me interessa!
Sou sempre o primeiro a ouvir o ruído dos cascos e a ver a égua alazã da cor do barro. Sou o primeiro a dar-me conta de que o ginete não é um homem, mas uma senhora com calças de montar e cabeça bem erguida.
É claro que recebemos a forasteira de braços abertos, porque pessoa mais simpática não há. Depois de tomar chá, põe os alforges em cima da mesa e até parece ouro o que tira de lá de dentro. Os olhos da Lark põem-se a brilhar como moedas e a minha irmã não consegue ter as mãos quietas, como se quisesse apropriar-se de um tesouro.
Na realidade, o que a senhora traz não é tesouro nenhum, pelo menos a meu ver. São livros! Um monte de livros que ela, sozinha, carregou pela encosta acima. Um dia inteiro a cavalo para nada! É o que eu digo! Porque, se ela os quisesse vender, como faz o caldeireiro, que anda por aí com panelas, sertãs e outras coisas, veria logo que nós nem um centavo sequer temos para gastar… Muito menos em livros velhos e inúteis!
O meu pai põe-se a fitar a Lark e pigarreia. Então propõe à Senhora dos livros:
— Fazemos um contrato. Em troca de um livro dou-lhe uma saca de framboesas.
Aperto bem as mãos atrás das costas.
Quero falar, mas não me atrevo. As framboesas, fui eu que as apanhei… Para fazer uma tarte, não para trocar por um livro! Quando vejo a senhora recusar, até pasmo. Não aceita uma saca de framboesas, nem um molho de legumes, nem nada do que o meu pai lhe quer oferecer. Os livros não custam dinheiro; são de graça, como o ar. Ainda por cima, dentro de quinze dias, voltará para os trocar por outros! Cá para mim, tanto se me dá que a Senhora traga livros ou que não encontre o caminho até nossa casa. O que me espanta é que, mesmo que chova a cântaros, haja neve ou faça frio, ela volte sempre!
Certo dia de manhã, a terra acordou mais branca do que a barba do nosso avô. O vento uivava como lince em plena escuridão e apertámo-nos todos diante da lareira, pois, num dia desses, ninguém faz nada. Com um tempo assim, até os animaizinhos da floresta se deixam ficar bem aconchegados.
De repente, ouviram-se umas pancadinhas na janela. Era a Senhora dos livros, abrigada até à ponta dos cabelos! Para não apanharmos frio, fez a troca através da porta entreaberta. E quando o meu pai lhe pediu que dormisse em nossa casa, não se deixou convencer:
— A égua leva-me de volta — respondeu.
Fiquei de boca aberta a vê-la afastar-se. Pensei que era uma pessoa muito corajosa e tive vontade de saber por que é que a Senhora dos livros se arriscava a apanhar uma constipação ou coisa bem pior. Escolhi um livro com letras e desenhos e pedi à minha irmã Lark:
— Ensina-me o que está aqui, por favor.
A minha irmã não se riu nem troçou de mim.
Arranjou um lugar aconchegado e, em voz baixa, pôs-se a ler.
O meu pai costuma dizer que nos sinais da natureza está escrito se o inverno vai durar muito ou pouco. Este ano, todos os sinais anunciaram neve bem abundante e um frio tremendo. Mas, embora todos os dias ficássemos em casa apertados como sardinhas em lata, não me importei nada. Pela primeira vez.
Só quase na primavera é que a Senhora dos livros pôde voltar a visitar-nos. A minha mãe ofereceu-lhe um presente, a única coisa de valor que lhe podia dar: a sua receita de tarte de framboesa, a melhor do mundo.
— Não é muito, bem sei, para o grande esforço que faz — disse a minha mãe.
Em seguida, baixou a voz e acrescentou com orgulho:
— E por ter conseguido arranjar dois leitores onde apenas havia um!
Baixei a cabeça e esperei pelo fim da visita para comentar:
— Também gostaria de ter alguma coisa para lhe oferecer.
A Senhora dos livros virou-se e fitou-me com os seus grandes olhos negros:
— Vem cá, Cal — disse, com muita doçura.
Quando me aproximei dela, pediu:
— Lê-me alguma coisa.
Abri o livro que tinha entre as mãos, mesmo acabadinho de chegar. Dantes, eu pensava que eram quatro garatujas, mas agora já sei ver o que contém. E li um pouco em voz alta.

— Esta é que é a minha prenda! — disse a Senhora dos livros.
Heather Henson
La señora de los libros
Barcelona, Editorial Juventud, 2010
(Tradução e adaptação)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Laura e o Rato Desgosto


Como todas as manhãs, Laura abriu o armário para tirar um vestido. Que horror! Adivinha o que encontrou escondido no fundo… Um grande rato dos esgotos, que ria com todos os dentes. Laura quis gritar, chamar os pais, mas o grande ratão preveniu-a, apontando-lhe um revólver à testa:
— Se gritares, mato-te. Se me denunciares, desfaço-te.
Então, Laura fechou a boca a cadeado, assim como o armário e todos os sentidos do seu corpo.
Ela bem queria pôr um cadeado no armário e esquecer, mas, todas as manhãs e todas as noites, o rato gordo dos esgotos batia na porta com a cabeça, até ela a abrir.
À noite, todos os dias, ao abrir a porta para se vestir ou despir, lá estava o rato gordo. Laura despachava-se a tremer, mas não se atrevia a dizer nada. Porquê? Talvez porque o rato grande dos esgotos não fosse criança e se deva obedecer às pessoas crescidas, mesmo que sejam dos esgotos, não é verdade? Era o que Laura pensava.
Uma noite, o rato disse-lhe, com olhos terríveis:
— Quero ser o teu ursinho. Dá-me um beijo de boa-noite, se não, levas uma palmada.
Então Laura chorou, mas deu-lhe um beijo, o que achou horrível. Só que ela já não sabia muito bem o que era horrível e o que era agradável, porque, como já disse, ela tinha fechado, trancado e bloqueado tudo dentro dela. O rato estava, evidentemente, todo satisfeito, e disse, enquanto fumava o seu charuto:
— Todas as noites vens dar-me o meu beijo, minha linda. Assim quero e assim tem de ser.
O grande rato dos esgotos exigia coisas do arco-da-velha.
— Olha — dizia ele — lava-me estas peúgas fedorentas e põe-nas a secar. Quero todas as tuas bonecas. Aborreço-me aqui sozinho dentro do armário.
Um dia, o rato disse-lhe:
— Traz-me um bombom. Traz-me o teu bolo de arroz e as tuas batatas fritas.
E Laura lá lhos levou. Deu-lhe também os seus copos de leite, o lanche, o jantar e tudo o que ela comia de manhã, à tarde e à noite.
Um dia, pediu-lhe o sono, depois, os seus lindos sonhos cor-de-rosa. Quando se é rato de esgoto, só se tem sonhos horríveis. Ele deu-lhe os pesadelos negros e ela deu-lhe os seus sonhos cor-de-rosa.
Os pais de Laura começaram a ficar preocupados porque a viam emagrecer e perder o sono, sem saberem que Laura dava tudo ao rato grande e cinzento dos esgotos. (Laura pusera-lhe o nome de “Rato Desgosto”)
Certo dia, quando estava já muito magra por não comer nada e entregar tudo ao rato, Laura soube que, se não falasse, algo de grave lhe podia acontecer. Então disse à mãe:
— Mamã, tenho uma história para te contar. É a história do rato Desgosto.
Contou-lhe toda a história. A mãe ficou horrorizada e chorou todas as lágrimas que Laura tinha contido desde que decidira pôr a carapaça e fechar-se. Fez muito bem às duas.
Naquela noite, quando abriu a porta do armário, Laura viu que o rato tinha desaparecido e só lá tinha deixado as peúgas, aquelas que Laura tinha lavado. Eram tão pequeninas, que Laura franziu o sobrolho.
— Não pode ser! O rato Desgosto tinha uns pés assim tão pequeninos… afinal era minúsculo!
Ela que pensava que ele era tão grande e que nada podia contra ele! Afinal, bastou falar à mãe para ele desaparecer do armário, sem pedir mais nada. Era mesmo um rato nojento, mas que agora já não lhe fazia medo nenhum.
— Vês, Laura — disse-lhe a mãe. — Quando alguém te pedir alguma coisa, tens de te perguntar a ti própria, bem no fundo, se queres. Se alguma coisa em ti te diz que estás a ser forçada, ou que magoam o teu corpo, não deves obedecer, pelo menos antes de falares a alguém sobre isso. Mesmo que seja um Marciano, um rato dos esgotos, um crocodilo… mesmo que seja uma pessoa importante.
E ainda lhe disse:
— Se amanhã vires alguma coisa no armário, por favor, di-lo a um adulto. A mim, ao pai, à madrinha, à professora… a quem quer que seja! E, se alguém te ameaçar na rua, pede socorro a um adulto, entra numa loja ou noutro sítio qualquer. Nenhuma criança deve submeter-se a um rato do esgoto. Percebeste, minha querida?
— Sim — prometeu Laura, tranquilizada com esta promessa.

Nessa noite, Laura recuperou o bolo de arroz, os bombons, o seu ursinho, as batatas fritas. E o seu bom aspecto. Infelizmente durante algum tempo, ainda continuou a ter os antigos pesadelos negros, cheios de ratos dos esgotos, de ratinhos e de ameaças. Porque o ratão Desgosto tinha-lhe roubado alguns dos seus sonhos cor-de-rosa. Precisava de esperar algum tempo para os recuperar.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Maïmouna, a menina que engoliu os gritos mais depressa do que a saliva


Maïmouna não cabe em si de contente, porque vai passar um dia de sol com as amigas. Contudo, por vezes, a escuridão persegue a inocência e dá origem a um sofrimento silencioso. Este livro aborda a questão da excisão com pudor, através da expressão comovente dos sentimentos das pequenas vítimas, que irão lutar por um futuro mais digno e sereno.
Naquela manhã de céu azul e terra vermelha, Maïmouna acordou, depois de uma noite bem dormida. O céu não podia estar mais belo e a menina esqueceu os sonhos que tinha tido. Vestiu a túnica nova que a mãe lhe tinha oferecido e que parecia acariciá-la da cabeça aos pés. Era uma túnica de flores vermelhas. Saiu da cubata, atravessou o pátio e caminhou pela aldeia, ouvindo os seus próprios passos.
Abdou, o irmão de Maïmouna, estava sentado na terra vermelha, com o caderno da escola sobre os joelhos. Desenhava uma bicicleta. Se Maïmouna tivesse olhado para longe, para lá dos caminhos, teria visto outras meninas que, nessa manhã, também tinham tempo para estar ao sol.
Maïmouna encontrou Aïssatou e Dikko, as suas amigas. Em breve, Awa, Zeynab e Fatou chegariam também, com Sya e Ahadi, que davam a mão às gémeas Wassa e Kafougouna. Todas elas vestiam uma túnica com flores vermelhas. Nessa manhã, se alguém deixasse os olhos passear pela aldeia, teria visto um belo ramo de meninas!
— Aïssatou, o que são duas galinhas que estão sempre uma ao lado da outra e não se veem?
— Os olhos! — gritou Dikko.
Maïmouna perguntou ainda, a rir:
— E uma capoeira cheia de galinhas brancas, sabes o que é?
Desta vez, Aïssatou foi a primeira a responder.
— É a boca cheia de dentes!
Maïmouna ia fazer outra pergunta, quando se apercebeu de uma nuvem negra no céu, uma nuvem que voava rapidamente, como um gavião a querer atemorizar os pintainhos!
— Mas, o que é isto?
— É um bando de pássaros — respondeu Dikko.
E não se enganava. Era mesmo um bando de pássaros. Todos tinham um bico pontiagudo e cortante. Voavam tão depressa que ultrapassavam o próprio vento.
— Mas, o que querem? O que fazem?
— Dir-se-ia que estes pássaros negros estão por todo o lado!— exclamou Maïmouna.
Todas sentiram medo e esconderam-se atrás da velha jujubeira, carregada de botões, flores e frutos. Quando se voltaram, viram os pássaros a atacar as pequenas flores vermelhas dos arbustos.
As pequenas flores eram muito jovens e muito frescas.
Foi então que Maïmouna e as amigas ouviram as mulheres mais velhas a chamar. Correram até ao rio, que deslizava como uma cicatriz feita na terra, e chegaram ao pé das velhas vestidas de negro. O primeiro pássaro afastou as pétalas de uma flor para mais facilmente a ferir, a dilacerar, a mutilar, a excisar. Entretanto, os outros pássaros cercavam as pequenas flores da árvore. Mas, seriam mesmo pássaros? Ou seriam as velhas que se tinham transformado em pássaros?
É sabido que os homens se podem tornar leões e as mulheres elefantes, por isso…
Não muito longe, Abdou, que tinha desenhado uma bela bicicleta, hesitou um pouco entre um lápis azul e um outro vermelho. Escolheu o azul e pintou a sua bicicleta.
A mais velha de todas as velhas da aldeia fez gestos muito vivos, como se desenhasse um pássaro nas pernas de uma das meninas que as outras velhas tinham apanhado. Podia ser Awa ou Zeynab ou Fatou. A menina gritou e, em seguida, houve uma autêntica dança de gritos. Sya, Ahadi, Dikko e Aïssatou esqueceram, por sua vez, a vergonha e gritaram quando o sangue de cada uma desenhou, nas pernas, flores vermelhas como as das árvores e as das suas túnicas. Por fim, Wassa e Kafougouna viram as suas próprias lágrimas correr… Era como se as lágrimas tentassem apagar o sangue nas pernas. O sangue que corria do seu grito dilacerante.
Maïmouna engoliu os seus gritos mais depressa do que a saliva. Mas também ela tinha o corpo e os olhos tingidos de vermelho. Maïmouna estendeu-se sobre a relva, como se já não existisse. Como se a relva se recusasse a sentir o peso do seu corpo. E fechou os olhos para não ver o céu.
E o tempo foi passando, levando consigo algum do sofrimento…
— Maïmouna, não dizes nada?
Maïmouna nada respondeu a Aïssatou, que tinha chorado junto dela.
Aïssatou insistiu:
— Maïmouna… fala comigo.
— Aïssatou, será que ainda tenho palavras?
Maïmouna calou-se. Um pouco depois, Dikko perguntou:
— Maïmouna, em que estás a pensar?
— Penso nas flores… Elas não se abrem só para mostrar a sua beleza. As flores abrem-se para perfumar o mundo.
O tempo passou e continuou a semear a chuva e o bom tempo.
Uma manhã, na aldeia, Maïmouna, Aïssatou e Dikko conversavam perto do poço. Quando se aperceberam de um bando de pássaros no céu, foram logo a correr procurar as irmãs mais pequenas. Aïssatou pegou no machado do pai, que era lavrador. E Dikko pegou num longo pedaço de algodão que o pai, que era tecelão, tinha acabado de preparar. Maïmouna pegou no arco e na flecha do seu pai, que era caçador.
Abdou não tinha tempo para olhar para o céu. Reparava a sua mota de ferro, que não tinha medo da poeira.
Quando Aïssatou chegou ao rio com as suas irmãzinhas da areia, deu-lhe uma grande machadada e dividiu-o em dois. As suas irmãs puderam passar e nunca foram apanhadas pelos pássaros loucos! Quando Dikko chegou ao rio com as suas irmãzinhas do rio, lançou até à outra margem a banda de algodão. As suas irmãs passaram a ponte que ela acabava de inventar e nunca foram apanhadas pelos pássaros loucos! Quando Maïmouna chegou ao rio com as suas irmãzinhas da floresta, atirou as flechas. Uma após outra, as flechas construíram uma ponte por onde as suas irmãzinhas puderam passar e nunca foram apanhadas pelos pássaros loucos!
O tempo passou e continuou a semear a chuva e o bom tempo. Maïmouna, Aïssatou e Dikko cresceram. Um dia, quando pisavam juntas o milho-‑miúdo, Aïssatou murmurou:
— Dizem que este ano as velhas não se vão transformar em pássaros.
— E eu digo que, quando formos mais velhas do que as velhas, havemos de amar as flores de todas as árvores — acrescentou Dikko.
Abdou chegou, naquele dia, ao volante do seu táxi. Tinha deixado a cidade ao nascer do sol. Embora estivesse atrasado, conduzia devagar, porque não queria que a poeira vermelha da terra tingisse o táxi azul. Uma pesada gota de chuva caiu e, rapidamente, todo o céu se pôs a chorar. Na aldeia dançou-se de alegria. A terra bem merecia esta chuva!
— Maïmouna, vamos dançar. O céu azul vai voltar e as mais belas flores das árvores virão adorná-lo.
— Sim, eu sei que vai voltar. Mas para mim, para ti e para ti, haverá sempre uma gota de sangue a adorná-lo. Uma gota de sangue que nos foi roubada.

Yves Pinguilly, N’naplé Coulibaly
Maïmouna qui avala ses cris plus vite que sa salive
La Roque-d’Anthéron, Vents d’ailleurs, 2007
(Tradução e adaptação)