Bem vindos ao blogue da Biblioteca da Escola Secundária António Inácio da Cruz em Grândola.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
O sonho

comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma dêmos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e do que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama, Pelo Sonho é que Vamos
Chá com Letras
FREI JOÃO SEM CUIDADOS
O rei ouvia sempre falar em Frei João Sem Cuidados como um homem que não se afligia com coisa nenhuma deste mundo.
- Deixa estar, que eu é que te hei-de meter em trabalhos!
Mandou-o chamar à sua presença e disse-lhe:
- Vou dar-te uma adivinha e, se dentro de três dias não me souberes responder, mando-te matar. Quero que me digas: Quanto pesa a Lua? Quanta água tem o mar? O que é que eu penso?
Frei João Sem Cuidados saiu do palácio bastante atrapalhado, pensando na resposta que havia de dar àquelas perguntas.
O seu moleiro encontrou-o no caminho e lá estranhou ver Frei João Sem Cuidados de cabeça baixa e macambúzio.
- Olá, senhor Frei João Sem Cuidados, então que é isso que o vejo tão triste?
- É que o rei disse-me que me mandava matar se dentro de três dias eu não lhe respondesse a estas perguntas: Quanto pesa a Lua? Quanta água tem o mar? O que é que ele pensa?
O moleiro pôs-se a rir e disse-lhe que não tivesse cuidados, que lhe emprestasse o hábito de frade, que ele iria disfarçado e havia de dar boas respostas ao rei.
Passados os três dias, o moleiro, vestido de frade, foi pedir audiência ao rei. O rei perguntou-lhe:
- Então quanto pesa a Lua?
- Saberá Vossa Majestade que não pode pesar mais do que um arrátel[1], porque todos dizem que tem dois quartos.
- É verdade… E agora: quanta água tem o mar?
Respondeu o moleiro:
- Isso é muito fácil de saber. Mas como vossa Majestade só quis saber da água do mar, é preciso primeiro que mande tapar todos os rios, porque sem isso nada feito.
O rei achou bem respondido. Mas zangado por ver que Frei João Sem Cuidados se escapava das dificuldades, tornou:
- Agora, se não souberes o que penso, mando-te matar!
O moleiro respondeu:
- Ora Vossa majestade pensa que está falando com Frei João Sem Cuidados, e está mas é falando com o seu moleiro!
Deixou cair o hábito de frade, e o rei ficou pasmado com a esperteza do ladino.
Teófilo Braga, in Contos Tradicionais do Povo Português
[1] Antiga medida de peso, equivalente a dois quartos de quilo
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Conheces o autor do mês?

Mario Vargas Llosa
O escritor Mario Vargas Llosa, 74 anos, galardoado com o Prémio Nobel da Literatura 2010, é um dos mais premiados autores da América Latina pelo seu trabalho como romancista, ensaísta e dramaturgo.
Da longa bibliografia destacam-se A Casa Verde (1967), Conversa na Catedral (1969), Pantaleão e as Visitadoras (1973), A Tia Júlia e o Escrevedor (1977) e A Guerra do Fim do Mundo (1981), História de Mayta (1984), Quem Matou Palomino Molero? (1986), O Falador (1987), Elogio da Madrasta (1988).
A partir da década de 1990 escreveu, entre outros, Como Peixe na Água (1993), Os Cadernos de Dom Rigoberto (1997), Cartas a Um Jovem Romancista (1997), A Festa do Chibo (2000), o Paraíso na Outra Esquina (2003), Travessuras da menina má (2006), e Diário do Iraque (2007), o mais recente.
Nascido em Arequipa, no Peru, a 28 de março de 1936, Jorge Mario Vargas Llosa, já era reconhecido com um dos maiores escritores em língua espanhola, com uma carreira também dedicada ao jornalismo, ao ensaísmo e ao activismo político.
Filho único nascido numa família de classe média, estudou no Colégio Militar Leôncio Prado, em La Perla, como aluno interno, experiência que servirá de tema do seu primeiro livro, “La ciudad y los perros” (“A cidade e os cães”) (1963).
Estudou Letras e Direito na Universidad Nacional Mayor de San Marcos, em Lima, e nos anos 1950 recebe uma bolsa de estudos para estudar em Espanha, na Universidade de Madrid, onde obtém um doutorado em Filosofia e Letras.
Como intelectual e escritor foi fortemente influenciado pelo existencialismo do filósofo francês Jean Paul Sartre e também pela obra do norte-americano William Faulkner.
Na área política, presidiu, em 1983, a uma comissão que investigou a morte de oito jornalistas, no final dessa década lançou um movimento liberal contra a desestatização da economia, e em 1990 concorreu à presidência do país com a Frente Democrata (FREDEMO), partido de centro-direita, mas foi Alberto Fujimori que acabou por ganhar as eleições.
Na sequência dessa derrota, retomou a actividade literária em Londres, cidade que mais tarde apreciaria pelo anonimato e a calma que lhe proporcionava para poder escrever, mas também dividiu residência por Paris, Barcelona e Madrid.
Foi galardoado, entre outros, com o Prémio Rómulo Gallegos (1967), o Prémio Cervantes (1994), o Prémio Nacional de Novela do Peru (1967), o Prémio Príncipe das Astúrias de Letras Espanha (1986) e o Prémio da Paz de Autores da Alemanha, concedido na Feira do Livro de Frankfurt (1997).
Em 1985 foi condecorado pelo governo francês com a Medalha de Honra.
Depois da contestação ao governo de Fujimori, em 1993 pediu a nacionalidade espanhola, mantendo também a peruana.
Mais informações, em castelhano, sobre o escritor em:
http://www.elpais.com/articulo/cultura/Mario/Vargas/Llosa/Premio/Nobel/Literatura/elpepucul/20101007elpepucul_3/Tes
Este mês sugerimos o livro...
Lituma nos Andes No meio da noite e dos Andes peruanos, dois homens, dois guardas civis, Lituma e Tomás, procuram três desaparecidos. Dizem-lhes que foram os demónios vivos. Eles não acreditam. Mas de algum modo é verdade. Quando se fala da obra de Mario Vargas Llosa, raramente, ou nunca, se refere “Lituma nos Andes”. E, no entanto, a novela faz parte, com “Conversa na Catedral” ou “A Cidade e os Cães”, ou “Panteleão e as Visitadoras”, dos escritos em que o Peru domina, com todas as suas contradições. A história do cabo Lituma e do seu ajudante Tomás Carreño, exilados num pequeno posto da Guarda Civil em Naccos, algures nos Andes, longe de Lima e do mundo, no meio de senderistas, sanguinários, e de serruchos, mais leais aos deuses das montanhas do que aos homens, tem tudo para prender, página a página. Pela densidade e o tropel de acontecimentos, a mestria dos diálogos cruzados. É urgente tirar o Prémio Planeta 1993 da prateleira. Os dois homens investigam o desaparecimento de três pessoas e não podem contar com ninguém na aldeia mineira de Naccos. O assunto é tabu. Entram na cantina de Adriana, a velha bruxa, e de Dionísio, e faz-se silêncio. De nenhuma boca sairá o que quer que seja sobre Pedrito Tinoco, Casimiro Huancaya e Demetrio Chanca. Um dia diluíram-se na bruma. Ou, pior do que isso, um pishtaco, um demónio vivo, secou-os, esquartejou-os e fê-los banha de candeia ou óleo de máquina . Mas como saber o que aconteceu se o assunto assusta e cala as bocas e os terrucas espreitam atrás de cada morro? O momento em que tudo se passa pode ser um ano qualquer anterior ao da edição do livro. Alberto Fujimori venceu as eleições de 1990 contra nem mais nem menos que Mario Vargas Llosa, que assim ficou com mais tempo para escrever sobre a tragédia do país. O Peru caminha de pés nus sobre brasas. O Sendero Luminoso aterroriza departamentos, províncias inteiras. Nasceu em 1980 para fazer a revolução popular e vai pondo bandeirinhas vermelhas em todas as colinas ou cabeços da sua caminhada para Lima. Vai marcando o caminho, as picadas, e que nem ninguém se lhe atravesse. Agora anda próximo de Tíngo Maria, e portanto de Naccos. E portanto nas barbas dos dois guardas civis. É este o ambiente. O diálogo entre Lituma e Tomasito, de catre para catre, noite fora, dentro da cabana posto, afastada do povoado, isolada, à volta da qual todos os ruídos são ameaçadores e todos os silêncios de arrepiar, percorre o livro como uma lufada de ar fresco, de humanidade. É o contraponto das investigações, que se arrastam, no meio de cenas de violência quase sem palavras para as descrever, terrucas de poncho e chullo enfiado na cabeça a matarem à pedrada um casal de jovens franceses em lua-de-mel, Albert e “petite” Michèle, numa estrada de Andahuaylas, o sineiro de Andamarca ou a engenheira agrícola senhora Harcourt entre Huancayo e Huancavelica, e outras. Muitas palavras no Peru começam por “huanca”. É que ali, antes dos incas, moraram dois povos, os huancas e os chancas, tendo os huancas, derrotados e assimilados, ficado conhecidos por um grau de violência incrível. Sempre que era preciso qualquer coisa da natureza, por exemplo rasgar uma estrada às entranhas da serra, ou pedir aos apus, os deuses dos lares e das montanhas, que contivessem os huaycos, desprendimentos colossais de pedra, terra e lama que tudo levam à frente e tudo esmagam, lá ia um sacrifício, em regra humano. E foi isso que Lituma e Tomasito descobriram, depois de uma conversa inspiradora com um antropólogo dinamarquês, Paul Stirmsson, apaixonado pelos rituais dos povos do tempo em que aquela terra se chamava Tehauantisuyo, que encontraram por acaso a duas horas de caminho. Que um dia, por causa da estrada que queriam rasgar na serra, para servir a mina de Naccos, mas que não conseguiam, e para afastar os terrucos, que espreitavam, os nativos, submetidos pela crendice, a superstição, deram cabo de Pedrito, o mudo, Casimiro e Demetrio. Pelo meio há histórias imperdíveis. Como a do pishtaco Salcedo, que um dia desapareceu, mas esse para ir morar para uma gruta, transforma-la numa fábrica de banha de gente e aterrorizar os Andes. Em “Lituma nos Andes”, muito para além da política e dos mecanismos do poder, do militarismo ou da corrupção, Mario Vargas Llosa desce aos abismos do atraso, da incultura, da miséria, da superstição, quase na barbárie, os demónios que subjazem a um país com um pé na modernidade e outro no terceiro mundismo. |
Este mês sugerimos o filme...

Uma Mente Brilhante (Beautiful Mind)
é um filme de 2001, drama biográfico, dirigido por Ron Howard, sobre a vida do matemático John Forbes Nash.
O guião foi baseado no livro de Sylvia Nasar, uma biografia muito precisa e abrangente da vida de Nash, adaptado por Akiva Goldsman, que alterou vários fatos relativos à vida e à doença de Nash por razões comerciais ou para maior efeito dramático e, por essa razão, recebeu várias críticas.
O filme foi produzido por Ron Howard e Brian Grazer, para a Universal Studios e DreamWorks.
Sinopse:
John Nash é um matemático prolífico e de pensamento não convencional, que consegue sucesso em várias áreas da matemática e uma carreira académica respeitável. Após resolver na década de 1950 um problema relacionado à teoria dos jogos, que lhe renderia, em 1994, o Prémio de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel (não confundir com o Prémio Nobel), Nash casa-se com Alicia. Após ser chamado a fazer um trabalho em criptografia para o Governo dos Estados Unidos da América, Nash passa a ser atormentado por delírios e alucinações. Diagnosticado como esquizofrénico, e após vários internamentos, ele precisará usar de toda a sua racionalidade para distinguir o real do imaginário e voltar a ter uma vida normal.